Na economia da salvação, o Pai torna-se acessível ao homem no Filho, pois toda a plenitude do Pai habita no Filho (Cl 1, 19; 2, 9) e é expressa por meio do Filho (Jo 1, 18). Dessa forma, o Deus incompreensível e inascessível é agora expresso e acessível em Cristo, o Logos de Deus (Jo 1, 1), uma vez que o Filho e o Pai são um (Jo 10, 30), e o Filho é também chamado de Pai (Is 9, 6).
O Pai quis combinar Sua divindade com a humanidade no Filho por meio da encarnação dEste. Com isso, não queremos dizer que a natureza humana foi “dissolvida como uma gota de mel no mar”, anulando praticamente a natureza humana. Pelo contrário, a divindade de Cristo pode ser comparada a um lenço branco que, imerso em tinta azul, representa a natureza divina de Cristo imersa na natureza humana. O lenço branco tornou-se para sempre azul. Da mesma forma que o azul foi adicionado ao lenço branco, a natureza humana de Cristo foi adicionada totalmente à divina, e as duas naturezas, antes separadas, agora se tornam apenas “uma, ímpar, indivisível, uma só essência, uma, inseparável”.
Na verdade, Jesus uniu na sua pessoa as duas naturezas perfeitas. É esta a compreensão desde o Concílio de Éfeso. A sua encarnação se deu pelo fato de sua natureza humana ter sido “assumida” pela natureza divina. Dessa forma, tudo o que Jesus faz é Deus quem faz. E tudo o que fazemos a Ele, fazemos a Deus. Isso significa dizer que, em Cristo, não há somente Deus (natureza divina), mas também o homem (natureza humana). Essas duas naturezas são tão unidas que deriva uma coisa só, uma “substância que não é comum, mas singular, tem uma só natureza e uma só pessoa”. Daí, podemos dizer que a natureza de Cristo é uma só, combinando o divino e o humano, sem, contudo, deixar de ser Deus e homem. A diferença se deu nas terminologias usadas para explicar o fenômeno da união da divindade e humanidade de Cristo.
Na verdade, nunca houve a negação da natureza humana e muito menos da divina de Cristo. Nos últimos anos, pudemos constatar que a Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia, assim como as demais Igrejas Ortodoxas Orientais, consideram que aquele cisma aconteceu por conta de problemas de ordem lingüística e de interpretação cultural, e não de ordem teológica, pois estas Igrejas reconheceram, no seu percurso histórico, tanto a humanidade como a divindade de Jesus.
Conforme se evidenciou, neste texto, os grupos das Igrejas Ortodoxas Orientais (Copta, Armênia, Siríaca, Malankara, Etíope e Eritréia) são chamadas de “ritos não-calcedônicos” e, ocasionalmente, de “monofisitas”, referindo-se a “única natureza” de Cristo. “Errônea” e “comumente” essas Igrejas são chamadas ainda no ocidente de “Igrejas Monofisistas”, mas, na realidade, são auto-denominadas de “miafisitas”, do gr. mónos (única) + phýsis (natureza). Todavia, essas Igrejas, a exemplo da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, se descrevem como “miafisitas”, isto é, “única natureza unida” de Cristo. Esse termo difere-se, portanto, do “monofisismo histórico” do século V, elaborado por Eutiques. No “monofisismo” de Eutiques, o ensinamento é de que a natureza divina absorveu a natureza humana de Cristo, enquanto que na doutrina do “miafisismo” (ou miofisismo), em Jesus Cristo só há uma natureza (divina e humana em conjunto). Nesse sentido, a natureza de Cristo é única, fruto da união entre o humano e o divino. Se Cristo é uma pessoa da Trindade, ele deve ser necessariamente de uma natureza, uma vez que, na compreensão das Igrejas Ortodoxas Orientais, duas naturezas constituem duas pessoas.
Este Jesus, homem-Deus, viveu na terra por trinta e três anos, experimentando as coisas comuns e habituais, tais como cansaço, fome, sede, choro, perseguições, sofrimentos e morte. Reconhecemos, pois, não só a divindade de Cristo, mas também sua humanidade. Em termos de exemplificação, na liturgia da Igreja Sírian Ortodoxa, o sacerdote pronuncia um Cristo Divino e Humano, isto é, o Verbo de Deus que sofre e que é glorificado: É fato comprovado, certo e confirmado: sobre o madeiro da cruz, ei-lo crucificado. O Verbo Deus sofreu em sua própria carne. Ele todo padeceu. Ele foi imolado. Sua alma se separou de seu corpo divinal. A sua Divindade permaneceu integral. Ela nunca se rompeu do corpo ou da alma. Encarnação é isto: união e não ilusão. Seu peito foi rasgado pela lança do soldado. Sangue e água jorraram para vida eterna. Pelo pecado do réu, o Verbo Deus morreu. E se Deus não morreu [morresse], o morto seria eu. Sua alma se uniu a seu corpo de novo, unindo-nos a Deus pela graça do perdão. E ao terceiro dia, Ele já ressuscitou, glorioso, vitorioso, a morte já acabou. Emanuel é uno, ímpar, indivisível, uma só essência, uma, inseparável. Cremos que este corpo é deste mesmo sangue, e este mesmo sangue é deste mesmo corpo.” (SANTA, s/d, s/p).
Em síntese, ao se auto-avaliar, as Igrejas Ortodoxas Orientais, de modo especial, a Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia, acreditam em realizar grande esforço para promover a discussão e o diálogo dos itens atinentes à fé e dogma entre os membros das Igrejas, além do importante papel que os Encontros Ecumênicos, as Comissões Teológicas e os acordos comuns de fé têm promovido na vida das Igrejas do Oriente Médio.
Em relação à Igreja Sírian Ortodoxa, ela “Nunca caiu em heresias ou cisma. [...] Foi um dos seus (IGNÁTIUS TEÓFORO = “Inácio Portador de Deus”) que usou pela primeira vez, o termo de IGREJA CATÓLICA, o nome que lhe é negado. Ela foi sempre ORTODOXA, junto as suas igrejas irmãs, mas a ortodoxia é dada hoje a outrem, pelo menos em dicionários. Sempre excomungou EUTIQUES e sua heresia, mas muitos ainda insistem em alcunhá-la eutiquiana, monofisita ou jacobita. Nunca se separou de ninguém, senão dos desvios, pois nunca se sujeitou a nenhuma outra Igreja. E mesmo assim, é denominada cismática. Esta é a minha Igreja, a Igreja de minha aldeola” (SALAMA, apud SOUZA, 2009, p.6).
Diferentemente do universo ocidental, o oriente sempre privilegiou a experiência da religião, de modo especial, a experiência ascética e mística, enquanto que no Ocidente prevaleceu a uma visão jurídica do pecado, entendido como culpa. Desse modo, houve divergências em relação à moral da transgressão e da culpa, pois, no catolicismo, “a cruz se torna o coração da fé católica”, uma espécie de resgate das culpas pessoais, enquanto que, na ortodoxia, a ênfase é dada à “ressurreição” como vitória da vida sobre a morte e o pecado.
por Celso Kallarrari