Fé Ortodoxa - Una, Santa, Católica e Apostólica

[Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia Missionária do Brasil] Diocese dos estados de Goiás e Tocantins.

12/9/09

A natureza Divino-humana de Cristo

Na economia da salvação, o Pai torna-se acessível ao homem no Filho, pois toda a plenitude do Pai habita no Filho (Cl 1, 19; 2, 9) e é expressa por meio do Filho (Jo 1, 18). Dessa forma, o Deus incompreensível e inascessível é agora expresso e acessível em Cristo, o Logos de Deus (Jo 1, 1), uma vez que o Filho e o Pai são um (Jo 10, 30), e o Filho é também chamado de Pai (Is 9, 6).

O Pai quis combinar Sua divindade com a humanidade no Filho por meio da encarnação dEste. Com isso, não queremos dizer que a natureza humana foi “dissolvida como uma gota de mel no mar”, anulando praticamente a natureza humana. Pelo contrário, a divindade de Cristo pode ser comparada a um lenço branco que, imerso em tinta azul, representa a natureza divina de Cristo imersa na natureza humana. O lenço branco tornou-se para sempre azul. Da mesma forma que o azul foi adicionado ao lenço branco, a natureza humana de Cristo foi adicionada totalmente à divina, e as duas naturezas, antes separadas, agora se tornam apenas “uma, ímpar, indivisível, uma só essência, uma, inseparável”.

Na verdade, Jesus uniu na sua pessoa as duas naturezas perfeitas. É esta a compreensão desde o Concílio de Éfeso. A sua encarnação se deu pelo fato de sua natureza humana ter sido “assumida” pela natureza divina. Dessa forma, tudo o que Jesus faz é Deus quem faz. E tudo o que fazemos a Ele, fazemos a Deus. Isso significa dizer que, em Cristo, não há somente Deus (natureza divina), mas também o homem (natureza humana). Essas duas naturezas são tão unidas que deriva uma coisa só, uma “substância que não é comum, mas singular, tem uma só natureza e uma só pessoa”. Daí, podemos dizer que a natureza de Cristo é uma só, combinando o divino e o humano, sem, contudo, deixar de ser Deus e homem. A diferença se deu nas terminologias usadas para explicar o fenômeno da união da divindade e humanidade de Cristo.

Na verdade, nunca houve a negação da natureza humana e muito menos da divina de Cristo. Nos últimos anos, pudemos constatar que a Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia, assim como as demais Igrejas Ortodoxas Orientais, consideram que aquele cisma aconteceu por conta de problemas de ordem lingüística e de interpretação cultural, e não de ordem teológica, pois estas Igrejas reconheceram, no seu percurso histórico, tanto a humanidade como a divindade de Jesus.

Conforme se evidenciou, neste texto, os grupos das Igrejas Ortodoxas Orientais (Copta, Armênia, Siríaca, Malankara, Etíope e Eritréia) são chamadas de “ritos não-calcedônicos” e, ocasionalmente, de “monofisitas”, referindo-se a “única natureza” de Cristo. “Errônea” e “comumente” essas Igrejas são chamadas ainda no ocidente de “Igrejas Monofisistas”, mas, na realidade, são auto-denominadas de “miafisitas”, do gr. mónos (única) + phýsis (natureza). Todavia, essas Igrejas, a exemplo da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, se descrevem como “miafisitas”, isto é, “única natureza unida” de Cristo. Esse termo difere-se, portanto, do “monofisismo histórico” do século V, elaborado por Eutiques. No “monofisismo” de Eutiques, o ensinamento é de que a natureza divina absorveu a natureza humana de Cristo, enquanto que na doutrina do “miafisismo” (ou miofisismo), em Jesus Cristo só há uma natureza (divina e humana em conjunto). Nesse sentido, a natureza de Cristo é única, fruto da união entre o humano e o divino. Se Cristo é uma pessoa da Trindade, ele deve ser necessariamente de uma natureza, uma vez que, na compreensão das Igrejas Ortodoxas Orientais, duas naturezas constituem duas pessoas.

Este Jesus, homem-Deus, viveu na terra por trinta e três anos, experimentando as coisas comuns e habituais, tais como cansaço, fome, sede, choro, perseguições, sofrimentos e morte. Reconhecemos, pois, não só a divindade de Cristo, mas também sua humanidade. Em termos de exemplificação, na liturgia da Igreja Sírian Ortodoxa, o sacerdote pronuncia um Cristo Divino e Humano, isto é, o Verbo de Deus que sofre e que é glorificado: É fato comprovado, certo e confirmado: sobre o madeiro da cruz, ei-lo crucificado. O Verbo Deus sofreu em sua própria carne. Ele todo padeceu. Ele foi imolado. Sua alma se separou de seu corpo divinal. A sua Divindade permaneceu integral. Ela nunca se rompeu do corpo ou da alma. Encarnação é isto: união e não ilusão. Seu peito foi rasgado pela lança do soldado. Sangue e água jorraram para vida eterna. Pelo pecado do réu, o Verbo Deus morreu. E se Deus não morreu [morresse], o morto seria eu. Sua alma se uniu a seu corpo de novo, unindo-nos a Deus pela graça do perdão. E ao terceiro dia, Ele já ressuscitou, glorioso, vitorioso, a morte já acabou. Emanuel é uno, ímpar, indivisível, uma só essência, uma, inseparável. Cremos que este corpo é deste mesmo sangue, e este mesmo sangue é deste mesmo corpo.” (SANTA, s/d, s/p).

Em síntese, ao se auto-avaliar, as Igrejas Ortodoxas Orientais, de modo especial, a Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia, acreditam em realizar grande esforço para promover a discussão e o diálogo dos itens atinentes à fé e dogma entre os membros das Igrejas, além do importante papel que os Encontros Ecumênicos, as Comissões Teológicas e os acordos comuns de fé têm promovido na vida das Igrejas do Oriente Médio.

Em relação à Igreja Sírian Ortodoxa, ela “Nunca caiu em heresias ou cisma. [...] Foi um dos seus (IGNÁTIUS TEÓFORO = “Inácio Portador de Deus”) que usou pela primeira vez, o termo de IGREJA CATÓLICA, o nome que lhe é negado. Ela foi sempre ORTODOXA, junto as suas igrejas irmãs, mas a ortodoxia é dada hoje a outrem, pelo menos em dicionários. Sempre excomungou EUTIQUES e sua heresia, mas muitos ainda insistem em alcunhá-la eutiquiana, monofisita ou jacobita. Nunca se separou de ninguém, senão dos desvios, pois nunca se sujeitou a nenhuma outra Igreja. E mesmo assim, é denominada cismática. Esta é a minha Igreja, a Igreja de minha aldeola” (SALAMA, apud SOUZA, 2009, p.6).

Diferentemente do universo ocidental, o oriente sempre privilegiou a experiência da religião, de modo especial, a experiência ascética e mística, enquanto que no Ocidente prevaleceu a uma visão jurídica do pecado, entendido como culpa. Desse modo, houve divergências em relação à moral da transgressão e da culpa, pois, no catolicismo, “a cruz se torna o coração da fé católica”, uma espécie de resgate das culpas pessoais, enquanto que, na ortodoxia, a ênfase é dada à “ressurreição” como vitória da vida sobre a morte e o pecado.

 

por Celso Kallarrari

 

criado por Diác. Celso Kallarrari    23:55:36 — Arquivado em: artigos

5 Comentários »

  1. Muito bom o texto. Também compartilho de sua idéia.
    Um abraço

    Comentário por Pe. Paulo de Tarso Gantus — quarta-feira, 16 de setembro de 2009 @ 22:57:55

  2. Pe Paulo de Tarso, obrigado pela participação nessa página. In corde Mariae!!!

    Comentário por Diác. Celso Kallarrari — sexta-feira, 18 de setembro de 2009 @ 03:19:55

  3. Prezado Diác. Celso,
    apreciei seu texto e fico feliz em ver seu interesse em se aprofundar as coisas da igreja. Seu blog agora têm cara e perfil de missão.
    Pois bem:
    Pode ser que esteja enganado, mas vamos lá.
    Segundo Mar Crisóstomos Moussa Matanos Salama, somos uma Igreja “MONOCRÍSTICA”. E Jesus Cristo tem uma ÚNICA NATUREZA: “Divino-Humana”. Dom Moussa era catedrático nas suas colocações. Não se deixe contaminar por outras doutrinas ou reflexões alheias a fé ortodoxa. Não é quesstão de linguística e nem gramática e/ou interpletação textual. O centro da nossa fé está nesta afirmação. Senão aquelas mortes foram em vão. Naquela noite, onde mais de 2000 dedos foram cortados.
    Reveja estes dois aspectos, a saber: Monocrístico e uma única natureza, Divino-Humana.
    Atenciosamente,
    Pe. Roberto Demétrio, Sacerdote Ortodoxo.

    Comentário por Pe. Roberto Demétrio da Silva Souza — segunda-feira, 21 de setembro de 2009 @ 18:30:48

  4. Caríssimo, Pe Roberto!
    Obrigado pela sua contribuição!
    O blog está dividido em categorias. Dentre as categorias, uma delas é esta “artigos”
    relacionado à nossa fé ortodoxa. As outras categorias, a exemplo do “ecumenismo”,
    entre outras têm o interesse de divulgar coisas peculiares a cada temática, embora
    encontramos com tempo limitado para a divulgação.
    Em relação à natureza (ÚNICA) humana e divina de Cristo, conforme o título não pluralizei “As naturezas
    humana e divina”, simplesmente porque, de fato, acreditamos numa só natureza. O artigo “e” no português é uma conjunção aditiva e o não uso do artiga “a” antes da palavra divina, indica que se trata apenas de UMA NATUREZA: DIVINA E HUMANA ou DIVINO-HUMANA. Como o texto é um excerto de um artigo, houve, naturalmente, em outros itens que antecedem esse pequeno texto, a discussão do histórico “monofisismo de Eutiques” (natureza divina absorveu a natureza humana) que difere totalmente da compreensão da nossa Igreja. Traduzi, para este blog, com muito esforço traduzi do francês, a declaração conjunta de 1971, feita e, preste atenção, assinada pelo Santo Padre Paulo VI e Sua Santidade o Patriarca Inátius Jacob III, que apresenta a questão das dificuldades de compreensão de termos (LINGUÍSTICOS), durante pretéritos anos:
    Um progresso já foi feito, e Papa Paulo VI e o Patriarca Mar Inácio Jacob III estão de acordo sobre o fato de que não existem diferenças na fé que professam quanto ao mistério do Verbo de Deus, feito carne e se tornou verdadeiramente homem, mesmo que, ao longo dos séculos, houve dificuldades de entendimento em diferentes termos teológicos que a fé que nossos antepassados expressaram. A teologia, portanto, urge da língua para explicar o fenômeno, o sobrenatural.
    Na verdade, se repete no discurso de João Paulo II e S. S. Mar Ignatius Zakkai I, Iwas, em 1984, quando naquela oportunidade o nosso próprio patriarca Em seu discurso, também publicado neste blog, ele recorda a declaração feita pelo seu antecessor, dizendo que houve dificuldades de entendimento surgidas no decorrer dos séculos em relação a outras EXPRESSÕES teológicas diferentes para ambas Igrejas porque esta fé foi expressada”
    No meu artigo, fiz questão de acentuar, de forma didática, que as duas naturezas, como são compreendidas no mundo ocidental, são tão unidas, na compreensão da nossa Igreja, que, por isso, deriva uma coisa só, uma “substância que não é comum, mas singular, tem uma só natureza (DIVINO-HUMANA) e uma só pessoa” . Daí, podemos dizer que a natureza de Cristo é uma só, combinando o divino e o humano, sem, contudo, deixar de ser Deus e homem. Ao nosso ver, a Igreja Sirian e a Igreja Romana expressam a mesma coisa de modos diferentes. A diferença se deu nas terminologias usadas pelas tradições antioquina e alexandrina para explicar o fenômeno da união da divindade e humanidade de Cristo e, por fim, naturalmente, a heresia de Nestório.
    Talvez me expressarei melhor usando, portanto, o título “a natureza divino-humana de Cristo”.
    Att,
    Diác. Celso

    Comentário por Diác. Celso Kallarrari — terça-feira, 22 de setembro de 2009 @ 15:51:09

  5. ERRATA, a preposição “por”, usada no penúltimo parágrafo do texto anterior, deveria ser o verbo “pôr”, ficando o texto: “(…) e pôr fim, naturalmente, a heresia de Nestório”.

    Comentário por Diác. Celso Kallarrari — terça-feira, 22 de setembro de 2009 @ 16:06:12

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