Fé Ortodoxa - Una, Santa, Católica e Apostólica

[Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia Missionária do Brasil] Diocese dos estados de Goiás e Tocantins.

24/9/09

A Igreja de Antioquia

(Paróquia Ortodoxa São Jorge - Aparecida de Goiânia - Pe Cristiano)

A Igreja tem sido o instrumento de Deus para a propagação mundial do evangelho. Tal como Deus formou a Israel e, no Antigo Testamento o constituiu como seu representante, assim formou a Igreja para concluir a tarefa iniciada pelos hebreus. Ela representa o corpo de Cristo – organismo vivo que Deus levantou para realizar os seus propósitos. 

O Espírito Santo foi dado à Igreja e quando o seu poder opera, Jesus faz a sua obra abundante por meio dela. A Igreja primitiva, por conseguinte, estava ciente da visão missionária e universal de Deus. Apesar das perseguições, nossos primeiros irmãos  obedeceram piamente ao “ide” de Jesus. E nós? O que temos realizado?

A ordem dada por Jesus aos discípulos momentos antes de sua ascensão – que fossem suas testemunhas até aos confins da terra – não estava sendo cumprida pelos crentes em Jerusalém. Apesar de contar com milhares de crentes, os quais continuavam vivendo em Jerusalém tendo tudo em comum, a Igreja primitiva ainda não havia tomado consciência de sua missão. Foi então que Deus permitiu abater sobre os discípulos a perseguição que os dispersou para várias regiões. Filipe, por exemplo, foi para Samaria. 

Outros discípulos testemunharam em outras cidades e muitos se converteram, tendo-se iniciado a formação do poderoso núcleo do evangelho que foi a igreja em Antioquia. Quando os apóstolos souberam da existência de discípulos em Antioquia, enviaram para lá Barnabé, incumbido de sondar a legitimidade das conversões. Tendo chegado e visto que de fato Deus concedera sua graça aos gentios, exortou os discípulos a permanecerem no Senhor e partiu em busca de Saulo, que estava, por aquele tempo, em Tarso, para engajá-lo na tarefa de estruturar a nova igreja. Então, os dois juntos se aplicaram intensamente ao ensino. Peça a seus alunos que relacionem três fatos ocorridos como resultado imediato do trabalho de Saulo e Barnabé em Antioquia. Dê-lhes cinco minutos para executarem esta tarefa. Esgotado o tempo estipulado, escreva no quadro de giz os fatos relacionados abaixo e compare-os com os apresentados por seus alunos. 

1) Os discípulos foram despertados para a obra de beneficência (At 11.27-30).
2) Os discípulos foram, pela primeira vez, chamados cristãos (At 11.26).
3) Teve início a obra missionária; os crentes de Antioquia separaram a Paulo e Barnabé, e os enviaram na qualidade de missionários a outras terras.

INTRODUÇÃOEm Antioquia da Síria estava a primeira igreja gentia e a maior igreja missionária depois de Jerusalém. Além dessas duas características, gentia e missionária, Antioquia também teve o privilégio de ter o apóstolo Paulo como seu pastor (v.26), tornando-se a base missionária deste apóstolo. Vejamos como esta etapa tão importante da evangelização mundial começou a se cumprir de acordo com o plano-mestre estabelecido por Nosso  Senhor.

I. A IGREJA EM TERRITÓRIO GENTIO

 

 

 

1. Fugindo das perseguições. As perseguições iniciadas em Jerusalém, depois do martírio de Estêvão, tornaram insuportável a situação dos cristãos naquela cidade. Muitos foram dispersos, não só pela Judéia e Samaria, mas para além da terra de Israel, indo para a Fenícia, Chipre, Antioquia da Síria e Cirene (v.19; 8.1-4). De todas essas regiões, Antioquia sobressaiu-se, tornando-se no mais importante centro missionário do primeiro século. Durante os primeiros séculos do Cristianismo ela esteve entre os cinco maiores centros cristãos da história: Antioquia, Jerusalém, Alexandria, Constantinopla e Roma. 

2. A cidade de Antioquia da Síria. Distava 500 quilômetros de Jerusalém e gozava de posição estratégica favorável para missões. Localizava-se na divisa entre os dois mundos culturais da época – o grego e o semita. Não deve ser confundida com a Antioquia da Pisídia (At 13.14). Era a terceira cidade do Império Romano, vindo depois de Roma e Alexandria. Passou a ser a capital da província romana da Síria, em 64 a.C., quando Pompeu a conquistou. 

3. O caráter universal do evangelho. Era cidade de população mista e boa parte desta era de judeus. Josefo afirma que muitos judeus emigraram para a região nos dias dos selêucidas e outros fugiram para lá durante as guerras dos Macabeus. Isso talvez justifique a forte presença judaica, em Antioquia, nesse período da história da Igreja. A chegada do evangelho à cidade representou muito cedo o caráter universal da mensagem cristã. A partir daí o Cristianismo saiu dos círculos judaicos para ser pregado a todos os povos, conforme determinação do Senhor Jesus (Mt 28.19,20; Mc 16.15). 

II. OS FUNDADORES DA IGREJA DE ANTIOQUIA

1. Começou no anonimato. Os fundadores da igreja de Antioquia eram de Chipre e de Cirene: “Os quais, entrando em Antioquia, falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus” (v.20). Até então o evangelho era pregado só aos judeus (v.19). Talvez a experiência de Pedro na casa de Cornélio tivesse chegado ao conhecimento deles, e começaram a pregar também aos gentios (v.20). O resultado foi extraordinário! Esses gregos creram no Senhor Jesus e o número deles crescia a cada dia (v.21). Nascia a igreja dos gentios. A ordem profética “até aos confins da terra”, de Jesus, caminhava rapidamente para o seu cumprimento (At 1.8). 

2. Barnabé e Lúcio. As notícias foram recebidas com alegria pela igreja de Jerusalém. Curioso é que Barnabé era de Chipre (At 4.36) e Lúcio, um dos doutores da igreja de Antioquia, era de Cirene (At 13.1). Será que a iniciativa de se pregar aos gentios partiu deles? Quem seriam pois esses missionários? Muitos de nossos pioneiros ficaram no anonimato. Há grandes trabalhos que foram iniciados por pessoas anônimas, mas Deus conhece cada uma delas. Tais pessoas terão o seu galardão, e serão conhecidas e reconhecidas por toda a eternidade. 

III. ESTRUTURANDO UMA IGREJA EM CRESCIMENTO

 

1. Enviado para ensinar. Barnabé foi enviado pela igreja de Jerusalém para ensinar aos gentios de Antioquia (v.26). Entendeu muito cedo o caráter universal do evangelho de Jesus. Ele e Saulo foram os primeiros pastores de Antioquia, e no exercício de seu ministério ultrapassaram as barreiras culturais. O Cristianismo é transcultural; a igreja de Jerusalém enviou o homem certo para Antioquia. Por ser cipriota, talvez tivesse mais jeito de lidar com os gentios (v.22). Esse é um exemplo de missionário enviado para ensinar numa igreja já constituída. 

2. O convite feito a Saulo. Barnabé foi o primeiro que entendeu a nova realidade. Vendo que os costumes dos gentios eram muito diferentes das tradições judaicas e que aqueles irmãos estavam alegres e eram fervorosos no espírito, mas provenientes de outra cultura, lembrou-se de Saulo, pois sabia que o Senhor Jesus o havia chamado para pregar e ensinar aos gentios. Saulo era de Tarso, grande centro cultural da época, e conhecia a cultura grega. Ninguém melhor do que Saulo para ensinar a esses novos crentes de costumes estranhos. Barnabé não hesitou em  buscá-lo em Tarso para essa nobre tarefa (v.25). Antioquia conquistou essa importância na história do Cristianismo graças a estrutura bem organizada por Barnabé e Saulo.

IV. O QUE SIGNIFICA O NOME “CRISTÃO”?

1. A palavra “cristão” ocorre somente três vezes no Novo Testamento (11.26; 26.28; 1 Pe 4.6). Originalmente designava um servo e seguidor de Cristo. Hoje tornou-se um termo geral, destituído do seu significado primitivo. A nós, este termo deve sugerir o nome do nosso Redentor (Rm 3.24), a idéia do profundo relacionamento do crente com Cristo (Rm 8.38,39), o pensamento de que o recebemos como nosso  Senhor (Rm 5.1), e a causa da nossa salvação (Hb 5.9).

CONCLUSÃO

O texto de Atos 11.19-26 relata, ainda que de maneira resumida, um dos maiores acontecimentos da história da Igreja. Vemos aqui, em síntese, os passos para a universalização do evangelho: Filipe prega em Samaria (At 8.5). Como os samaritanos eram meio judeus, não foi aí que nasceu a igreja dos gentios. Depois Pedro prega na casa de Cornélio, que era gentio, mas como estava afeito à cultura judaica (At 10.1,2) também não há notícias de uma igreja gentia proveniente de sua casa. Finalmente, temos em Antioquia o princípio da sustentação missionária ao mundo gentílico. Sua igreja pode ser considerada uma base missionária? Há muitos Barnabés e Saulos esperando para serem comissionados até aos confins da terra.

  

 Por Esequias Soares 

 

criado por Diác. Celso Kallarrari    16:45:37 — Arquivado em: artigos

12/9/09

A natureza Divino-humana de Cristo

Na economia da salvação, o Pai torna-se acessível ao homem no Filho, pois toda a plenitude do Pai habita no Filho (Cl 1, 19; 2, 9) e é expressa por meio do Filho (Jo 1, 18). Dessa forma, o Deus incompreensível e inascessível é agora expresso e acessível em Cristo, o Logos de Deus (Jo 1, 1), uma vez que o Filho e o Pai são um (Jo 10, 30), e o Filho é também chamado de Pai (Is 9, 6).

O Pai quis combinar Sua divindade com a humanidade no Filho por meio da encarnação dEste. Com isso, não queremos dizer que a natureza humana foi “dissolvida como uma gota de mel no mar”, anulando praticamente a natureza humana. Pelo contrário, a divindade de Cristo pode ser comparada a um lenço branco que, imerso em tinta azul, representa a natureza divina de Cristo imersa na natureza humana. O lenço branco tornou-se para sempre azul. Da mesma forma que o azul foi adicionado ao lenço branco, a natureza humana de Cristo foi adicionada totalmente à divina, e as duas naturezas, antes separadas, agora se tornam apenas “uma, ímpar, indivisível, uma só essência, uma, inseparável”.

Na verdade, Jesus uniu na sua pessoa as duas naturezas perfeitas. É esta a compreensão desde o Concílio de Éfeso. A sua encarnação se deu pelo fato de sua natureza humana ter sido “assumida” pela natureza divina. Dessa forma, tudo o que Jesus faz é Deus quem faz. E tudo o que fazemos a Ele, fazemos a Deus. Isso significa dizer que, em Cristo, não há somente Deus (natureza divina), mas também o homem (natureza humana). Essas duas naturezas são tão unidas que deriva uma coisa só, uma “substância que não é comum, mas singular, tem uma só natureza e uma só pessoa”. Daí, podemos dizer que a natureza de Cristo é uma só, combinando o divino e o humano, sem, contudo, deixar de ser Deus e homem. A diferença se deu nas terminologias usadas para explicar o fenômeno da união da divindade e humanidade de Cristo.

Na verdade, nunca houve a negação da natureza humana e muito menos da divina de Cristo. Nos últimos anos, pudemos constatar que a Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia, assim como as demais Igrejas Ortodoxas Orientais, consideram que aquele cisma aconteceu por conta de problemas de ordem lingüística e de interpretação cultural, e não de ordem teológica, pois estas Igrejas reconheceram, no seu percurso histórico, tanto a humanidade como a divindade de Jesus.

Conforme se evidenciou, neste texto, os grupos das Igrejas Ortodoxas Orientais (Copta, Armênia, Siríaca, Malankara, Etíope e Eritréia) são chamadas de “ritos não-calcedônicos” e, ocasionalmente, de “monofisitas”, referindo-se a “única natureza” de Cristo. “Errônea” e “comumente” essas Igrejas são chamadas ainda no ocidente de “Igrejas Monofisistas”, mas, na realidade, são auto-denominadas de “miafisitas”, do gr. mónos (única) + phýsis (natureza). Todavia, essas Igrejas, a exemplo da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, se descrevem como “miafisitas”, isto é, “única natureza unida” de Cristo. Esse termo difere-se, portanto, do “monofisismo histórico” do século V, elaborado por Eutiques. No “monofisismo” de Eutiques, o ensinamento é de que a natureza divina absorveu a natureza humana de Cristo, enquanto que na doutrina do “miafisismo” (ou miofisismo), em Jesus Cristo só há uma natureza (divina e humana em conjunto). Nesse sentido, a natureza de Cristo é única, fruto da união entre o humano e o divino. Se Cristo é uma pessoa da Trindade, ele deve ser necessariamente de uma natureza, uma vez que, na compreensão das Igrejas Ortodoxas Orientais, duas naturezas constituem duas pessoas.

Este Jesus, homem-Deus, viveu na terra por trinta e três anos, experimentando as coisas comuns e habituais, tais como cansaço, fome, sede, choro, perseguições, sofrimentos e morte. Reconhecemos, pois, não só a divindade de Cristo, mas também sua humanidade. Em termos de exemplificação, na liturgia da Igreja Sírian Ortodoxa, o sacerdote pronuncia um Cristo Divino e Humano, isto é, o Verbo de Deus que sofre e que é glorificado: É fato comprovado, certo e confirmado: sobre o madeiro da cruz, ei-lo crucificado. O Verbo Deus sofreu em sua própria carne. Ele todo padeceu. Ele foi imolado. Sua alma se separou de seu corpo divinal. A sua Divindade permaneceu integral. Ela nunca se rompeu do corpo ou da alma. Encarnação é isto: união e não ilusão. Seu peito foi rasgado pela lança do soldado. Sangue e água jorraram para vida eterna. Pelo pecado do réu, o Verbo Deus morreu. E se Deus não morreu [morresse], o morto seria eu. Sua alma se uniu a seu corpo de novo, unindo-nos a Deus pela graça do perdão. E ao terceiro dia, Ele já ressuscitou, glorioso, vitorioso, a morte já acabou. Emanuel é uno, ímpar, indivisível, uma só essência, uma, inseparável. Cremos que este corpo é deste mesmo sangue, e este mesmo sangue é deste mesmo corpo.” (SANTA, s/d, s/p).

Em síntese, ao se auto-avaliar, as Igrejas Ortodoxas Orientais, de modo especial, a Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia, acreditam em realizar grande esforço para promover a discussão e o diálogo dos itens atinentes à fé e dogma entre os membros das Igrejas, além do importante papel que os Encontros Ecumênicos, as Comissões Teológicas e os acordos comuns de fé têm promovido na vida das Igrejas do Oriente Médio.

Em relação à Igreja Sírian Ortodoxa, ela “Nunca caiu em heresias ou cisma. [...] Foi um dos seus (IGNÁTIUS TEÓFORO = “Inácio Portador de Deus”) que usou pela primeira vez, o termo de IGREJA CATÓLICA, o nome que lhe é negado. Ela foi sempre ORTODOXA, junto as suas igrejas irmãs, mas a ortodoxia é dada hoje a outrem, pelo menos em dicionários. Sempre excomungou EUTIQUES e sua heresia, mas muitos ainda insistem em alcunhá-la eutiquiana, monofisita ou jacobita. Nunca se separou de ninguém, senão dos desvios, pois nunca se sujeitou a nenhuma outra Igreja. E mesmo assim, é denominada cismática. Esta é a minha Igreja, a Igreja de minha aldeola” (SALAMA, apud SOUZA, 2009, p.6).

Diferentemente do universo ocidental, o oriente sempre privilegiou a experiência da religião, de modo especial, a experiência ascética e mística, enquanto que no Ocidente prevaleceu a uma visão jurídica do pecado, entendido como culpa. Desse modo, houve divergências em relação à moral da transgressão e da culpa, pois, no catolicismo, “a cruz se torna o coração da fé católica”, uma espécie de resgate das culpas pessoais, enquanto que, na ortodoxia, a ênfase é dada à “ressurreição” como vitória da vida sobre a morte e o pecado.

 

por Celso Kallarrari

 

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10/9/08

A Igreja em Antioquia (At 11, 19-30)

O Martírio de Santo Inácio de Antioquia

“Os que tinham sido dispersos por causa da perseguição desencadeada com a morte de Estêvão chegaram até a Fenícia, Chipre e Antioquia, anunciando a mensagem apenas aos judeus. Alguns deles, todavia, cipriotas e cireneus, foram a Antioquia e começaram a falar também aos gregos, contando-lhes as boas novas a respeito do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles, e muitos creram e se converteram ao Senhor.

Notícias desse fato chegaram aos ouvidos da Igreja em Jerusalém, e eles enviaram Barnabé a Antioquia. Este, ali chegando e vendo a graça de Deus, ficou alegre e os animou a permanecerem fiéis ao Senhor, de todo o coração. Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé; e muitas pessoas foram acrescentadas ao Senhor.

Então Barnabé foi a Tarso procurar Saulo e, quando o encontrou, levou-o para Antioquia. Assim, durante um ano inteiro Barnabé e Saulo se reuniram com a Igreja e ensinaram a muitos. Em Antioquia, os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos” (At 11, 26b)

Naqueles dias alguns profetas desceram de Jerusalém para Antioquia. Um deles, Ágabo, levantou-se e pelo Espírito predisse que uma grande fome sobreviria a todo o mundo romano, o que aconteceu durante o reinado de Cláudio. Os discípulos, cada um segundo as suas possibilidades, decidiram providenciar ajuda para os irmãos que viviam na Judéia. E o fizeram, enviando suas ofertas aos presbíteros pelas mãos de Barnabé e Saulo. (At 11, 19-30).

In.: (BÍBLIA SAGRADA. Nova versão Internacional. Tradução pela Comissão de Tradução da Sociedade Bíblica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.)

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6/9/08

O que levou a Igreja em Antioquia a fazer Missões?

Em Atos 13 o horizonte de Lucas se alarga pois o nome de Jesus seria maciçamente testemunhado além da Judéia e Samaria. A partir de Antioquia chegaria aos confins da terra. Os dois diáconos evangelistas prepararam o caminho. Estevão através de seu ensino e martírio, Filipe através de sua evangelização ousada junto aos samaritanos e ao etíope. O mesmo efeito tiveram as duas principais conversões relatadas por Lucas, a de Saulo, que também fora comissionado a ser o apóstolo dos gentios, e a de Cornélio, através do apóstolo Pedro. Evangelistas anônimos também pregaram o evangelho aos “helenistas” em Antioquia. Mas sempre a ação esteve limitada à Palestina e à Síria. Ninguém tinha tido a visão de levar as boas novas às nações além mar, apesar de Chipre ter sido mencionada em Atos 11:19. Agora, finalmente, vai ser dado esse passo significativo.

A população cosmopolita de Antioquia se refletia nos membros de sua igreja e até mesmo em sua liderança, que consistia em cinco profetas e mestres que moravam na cidade. Lucas não explica a diferença entre esses ministérios, nem se todos os cinco exerciam ambos os ministérios ou se os primeiros três eram profetas e os últimos dois mestres. Ele só nos dá os seus nomes. O primeiro era Barnabé, que foi descrito com “um levita, natural de Chipre” (Atos 4:36). O segundo era Simeão que tinha o sobrenome de Níger, que significa Negro, provavelmente um africano e supostamente ninguém menos que Simão Cireneu, que carregou a cruz para Jesus. O terceiro era Lúcio de Cirene e alguns conjecturam que Lucas se referia a si mesmo o que é muito improvável já que ele preserva seu anonimato em todo o livro. Havia também Manaém, em grego chamado o “syntrophos” de Herodes o tetrarca, isto é, de Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande. A palavra pode significar que Manaém foi “criado” com ele de forma geral ou mais especificamente que era seu irmão de leite. O quinto líder era Saulo. Estes cinco homens simbolizavam a diversidade étnica e cultural de Antioquia e da própria igreja.

Foi quando eles estavam “servindo ao Senhor, e jejuando” que o Espírito Santo lhes disse: “separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At.13:2). Algumas perguntas precisam ser respondidas.

A quem o Espírito Santo revelou a sua vontade? Quem eram “eles”, as pessoas que estavam jejuando e orando?

Parece-me improvável que devamos restringi-los ao pequeno grupo dos cinco líderes, pois isso implicaria em três deles serem instruídos acerca dos outros dois. É mais provável que se referia aos membros da igreja como um todo já que eles e os líderes são mencionados juntos no versículo 1 de Atos 13. Também em Atos 14:26-27, quando Paulo e Barnabé retornam, prestam conta a toda a igreja por terem sido comissionados por ela. Possivelmente Paulo e Barnabé já possuíam anterior convicção do chamado de Deus e esta verdade foi aqui revelada para toda a igreja.

Qual o conteúdo da revelação do Espírito Santo à Igreja em Antioquia?

Foi algo muito vago e possivelmente nos ensina que devemos nos contentar com as instruções de Deus para o dia de hoje. A instrução do Espírito Santo foi “separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado”, muito semelhante ao chamado de Abrão: “vai para a terra que te mostrarei”. Na verdade em ambos os casos o chamado era claro mas a terra e o país não.

Precisamos observar também que tanto Abrão como Saulo e Barnabé precisariam, para obedecerem a Deus, darem um passo de fé.

Como foi revelado o chamado de Deus?

Não sabemos. O mais provável é que Deus tenha falado à igreja através de um de seus profetas. Mas seu chamado também poderia ter sido interno e não externo, ou seja, através do testemunho do Espírito em seus corações e mentes. Independente de como o receberam, a primeira reação deles foi a de orar e jejuar, em parte, ao que parece, para testar o chamado de Deus e em parte para interceder pelos dois que seriam enviados. Notamos que o jejum não é mencionado isoladamente. Ele é ligado ao culto e à oração, pois raras vezes, ou nunca, o jejum é um fim em si mesmo. O jejum é uma ação negativa em relação a uma função positiva. Então jejuando e orando, ou seja, prontos para a obediência, “impondo sobre eles as mãos os despediram”.

Isto não era uma ordenação ao ministério muito menos uma nomeação para o apostolado já que Paulo insiste que seu apostolado não era da parte de homens, mas sim uma despedida, comissionando-os para o serviço missionário.

Quem comissionou os missionários?

De acordo com Atos 13:4 Barnabé e Saulo foram enviados pelo Espírito Santo que anteriormente havia instruído a igreja no sentido de separá-los para ele. Mas de acordo com o versículo seguinte foi a igreja que, após a imposição de mãos, os despediu. É verdade que o último verbo pode ser entendido como “deixou-os ir”, livrando-os de suas responsabilidades de ensino na igreja, pois às vezes Lucas usa o verbo “adulou” no sentido de soltar. Mas ele também o usa no sentido de dispensar. Portanto creio que seria certo dizer que o Espírito os enviou instruindo a igreja a fazê-lo e que a igreja os enviou, por ter recebido instruções do Espírito. Esse equilíbrio é sadio e evita ambos os extremos. O primeiro é a tendência para o individualismo pelo qual uma pessoa alega direção pessoal e direta do Espírito sem nenhuma referência à igreja. O segundo é a tendência para o institucionalismo, pelo qual todas as decisões são tomadas pela igreja sem nenhuma referência ao Espírito.

Conclusão

Não há indícios para crermos que Saulo e Barnabé eram voluntários para o trabalho missionário. Eles foram enviados pelo Espírito através da igreja. Portanto cabe a toda igreja local, e em especial aos seus líderes, ser sensível ao Espírito Santo, a fim de descobrir a quem ele está concedendo dons ou chamado.

Chamado missionário não é um ato voluntário, é uma obediência à visão do Senhor.

Assim precisamos evitar o pecado da omissão ao deixarmos de enviar ao campo aqueles irmãos com clara convicção de que foram chamados por Deus, bem como a precipitação de o fazermos com outros que possuem os dons para tal, mas sem confirmação do Espírito à igreja.

O equilíbrio é ouvir o Espírito, obedecê-lo e fazer da igreja local um ponto de partida para os confins da terra.

por John R. W. Stott 
Diretor do London Institute for Contemporary Christianity e autor de diversos livros como “A mensagem do sermão do Monte”, “A mensagem de Efésios” e “Crer é também Pensar”.

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Jerusalém versus Antioquia e o missionário

Igreja que se centraliza em missões influencia, muda, faz e fica na história.

“Disse Jesus: ‘Toda autoridade me foi dada no céu e na terra, ide portanto e pregai o evangelho a toda a criatura’ “. Como Jerusalém reagiu à universalidade dessa convocação?

Reagiu de forma muito morosa.

Pedro vai a Cornélio depois de um trabalho imenso do Espírito Santo para convencê-lo, com muita relutância. Não bastasse isso, ainda é chamado pelos líderes da Igreja em Jerusalém, onde é instado a apresentar um constrangido relatório sobre a pregação do Evangelho a gentios. Eis a crise que Jerusalém teve com o chamado de Cristo para a evangelização do mundo.

Signo da missão

A Igreja de Jerusalém só saiu para fazer missões quando foi perseguida. Isso se deu logo após o martírio de Estevão, quando, principalmente, o pessoal ligado a Estevão é caçado (O livro de Paulo, de Walter Wangerin, Editora Mundo Cristão) e chega a Samaria e Antioquia pregando o Evangelho. São eles que começam a pregar aos gentios.

Já a Antioquia nasce sob o signo da missão. Os seus presbíteros já trazem em si essa marca, são oriundos de diferentes partes do mundo. Por isso, diferente do apóstolo Pedro, que relutou, os presbíteros de Antioquia são absolutamente abertos ao Espírito Santo, estão prontos para ceder os seus dois melhores homens para o serviço missionário: Barnabé e Paulo.

A Igreja em Jerusalém reluta em pregar aos gentios, a Igreja em Antioquia já tem gentios em seu Conselho.

A Igreja em Jerusalém sofre de preconceitos farisaicos, a de Antioquia tem a visão de Jesus Cristo para todos os homens de todas as raças, de todas as tribos, de todas as línguas, de todas as nações.

A Igreja de Jerusalém desapareceu, a Igreja de Antioquia se tornou a “mãe de todas as igrejas” porque, a partir do ministério de Paulo e dos seus discípulos, isso sem contar o que Barnabé deve ter feito com Marcos, cuja memória perdemos, tem-se o desenvolvimento do Evangelho por toda a Europa e Ásia e, conseqüentemente, por todo o mundo.

Essa diferença aparece na formação das escrituras, a grande maioria dos livros que compõem o Novo Testamento foi escrita por missionários de Antioquia. Igreja que se centraliza em missões é Igreja que influencia, que muda, que faz e fica na história. E essa história começa com a visão que se tem do missionário.

Jerusalém via os missionários como uma espécie de aventureiros - e criticou seu líder quando este foi nisso envolvido pelo Espírito Santo. Antioquia via os missionários como os seus melhores homens.

Por Ariovaldo Ramos

criado por Diác. Celso Kallarrari    02:48:19 — Arquivado em: artigos
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