
null
PRONUNCIAMENTO DO EXMO DOM
JOSÉ FAUSTINO FILHO A SUA SANTIDADE, O PATRIARCA IGNATIUS ZAKKA I IWAS, NA CATEDRAL SIRÍACA ORTODOXA DE ANTIOQUIA, POR OCASIÃO DA VISITA DA DELEGAÇÃO DA IGREJA MISSIONÁRIA DE EVANGELIZAÇÃO DO BRASIL.
Em nome da “Igreja Missionária de Evangelização do Brasil”, saúdo: Vossa Santidade Ignatius Zakka I, chefe supremo da Santa Igreja Siríaca Ortodoxa no mundo, saúdo o Exmo arcebispo Silwanos Bouttros Alneme. Na sua pessoa, saúdo os demais bispos. Saúdo o Digníssimo Mons. Antônio Jorge Nakkoud. E, na sua pessoa, saúdo os demais padres presentes.
Santidade,
Ainda estamos de pé sobre o mundo para gritar que Deus “É”, que Jesus Cristo vive e que a Igreja é Mãe e Mestra. “A nossa glória é testemunha de nossa consciência, que temos vivido no mundo e, especialmente entre vós, em simplicidade e sinceridade perante Deus, não em sabedoria carnal, mas com a graça de Deus” (2 Cor. 1, 12-13).
Em nossa caminhada como Igreja de Missão, temos sofrido muito, mas não desanimamos porque conhecemos o caminho percorrido por Jesus Cristo, sempre amparados e protegidos pela Santíssima Virgem Maria, a Theotókos.
Precisamos ser submissos como Jesus foi submisso, tornando-se frente da nossa salvação mediante a obediência.
A coragem inunda a nossa vida duma inefável sensação de bem-aventurança e segurança. A sintonização entre Deus e nós é efetivada por Ele pela docilidade ao Espírito Santo quando nos colocamos sob à sua luz preciosa.
Sua Beatitude Aram I, quando esteve no Brasil, em 2006, como moderador da 9ª Assembléia Geral do Conselho Mundial das Igrejas, fez a seguinte exortação: “A Igreja deve tornar-se uma comunidade de todos para todos. [...] Uma Igreja dividida não pode ser um testemunho credível em um mundo fragmentado. [...] A Igreja não pode confinar-se em suas muralhas”.
Santidade, a sociedade brasileira é extremamente difícil de ser analisada e, no mundo contemporâneo, encontra-se em constante mudança e transformação. Quanto à religião, há um catolicismo ibérico, que é diferente do catolicismo romano, alemão ou francês. E, sui generis, cheio de festas de santos, de crenças paralelas ao catolicismo, mas sancionadas, de certo modo, pela fé católica romana. De fato, é um catolicismo fragmentado.
A inserção Siríaca Ortodoxa para o povo brasileiro, feita pelo Arcebispo Mar Crisóstomos Salama, tem a intenção de conquistar parte da sociedade não satisfeita com o catolicismo acima citado. Para isso, ele traduziu os rituais da missa, batismo, crisma, matrimônio, exéquias, dentre outros documentos litúrgicos, mantendo, todavia, a essência principal da fé ortodoxa para uma autêntica inculturação brasileira.
De acordo com as leis brasileiras, a Igreja Missionária está legalmente constituída em 15 estados. Falta-nos, portanto, a homologação de Vossa Santidade, a fim de confirmar a legitimidade, a vitalidade e a originalidade da Igreja Missionária de Evangelização no Brasil, fazendo jus as Bulas Patriarcais n.º 128/1983 e n.º 245/1988.
Nossa Igreja Missionária, iniciada em 1983, vem se expandindo como nos tempos apostólicos, em pequenas e grandes comunidades; contudo, com muita desigualdade.
O texto de Hebreus 5, 8 nos diz que a obediência do Senhor Jesus foi aprendida por meio do sofrimento. O sofrimento trouxe a Ele obediência verdadeira. Certamente, a submissão é encontrada quando, apesar do sofrimento, ainda há obediência. A utilidade do homem não está em ele sofrer ou não, mas em aprender a obediência ao sofrer. Somente aqueles que são obedientes a Deus são úteis. Se o coração não for amolecido, o sofrimento não desaparecerá, pois “É melhor sofrer por fazer o bem, se for da vontade de Deus, do que por fazer o mal” (I Pe 3, 17).
A salvação não somente nos traz alegria; traz, necessariamente, a submissão. Se um homem vive apenas alegria, o que ele experiencia não será abundante. Somente os submissos experimentarão a plenitude da salvação.
Santidade, a autoridade espiritual não vem por intermédio da capacidade humana. Antes ela vem pela escolha de Deus. Vossa Santidade é um escolhido de Deus para apascentar o rebanho constituído por seu filho Jesus Cristo, adquirido pela sua obediência. Sua autoridade é a autoridade do próprio Deus. Ela não pode, pois, ser violada. Qualquer um que fale contra a sua autoridade fala contra a escolha de Deus.
Hoje, mais do que nunca, através da sua autoridade, a Igreja Missionária precisa submeter-se a autoridade de Deus, a fim de que permaneçamos unidos à videira e o reino de Deus seja manifestado em sua plenitude. Doutra sorte, como pode o reino de Deus ser manifestado? Se discutirmos e argumentarmos uns com os outros, como o reino de Deus pode vir? Temos atrasado a Deus. Devemos libertar-nos de toda desobediência para que Deus tenha o caminho desimpedido. Quando a Igreja se submete à autoridade divina, as nações, por sua vez, se submeterão. Por isso, a Igreja carrega uma grande e pesada responsabilidade. Quando a vida de Deus, sua vontade e suas ordens forem executadas na Igreja, o reino virá. Se todos tomarem o caminho da submissão, os fatos gloriosos serão revelados diante dos nossos olhos.
Até o presente momento, temos atingido grande parte de nossas metas. Porém, falta-nos ainda atingir alguns pontos que precisam ser indicados por Vossa Santidade ou por preposto por vós indicado para nos acompanhar.
Tudo que fizemos até agora foi procurando acertar, uma vez que “a ninguém damos motivo de escândalo, para que nosso ministério não seja criticado” (2 Cor 6, 3). As nossas experiências Missionárias têm nos demonstrado, ao longo desses anos, que é preciso que uma Igreja Universal, em terras estrangeiras, passe pelo processo de inculturação, sem, contudo, perder, na diversidade das culturas, a originalidade e autenticidade da nossa tradição e fé ortodoxa.
Para a reflexão pascoal desse ano, escolhemos esta reflexão: “A Igreja do desafio, juntos redescobrindo a Tradição” como forma de reavaliação de nossa caminhada e redescoberta das raízes da nossa fé cristã, a partir de estudos sistemáticos e vida de oração. Dessa forma, esperamos uma nova ressurreição do Cristo em nossos corações, a fim de que, unidos, numa só mesa, reconheçamos Jesus que parte o pão conosco (Lc 24, 30). Sendo assim, “(…) os seus descendentes não poderão dizer aos nossos: ‘Vocês não têm parte com o Senhor’” (Js 22, 27b).
Enfim, nós, aqui legitimamente presentes, pedimos a Vossa Santidade que, em seu amor paternal, acolha-nos no seio maternal da Santa Igreja de Cristo e volva-nos seu olhar com bênçãos para nós e para aqueles que também, legitimamente, encontram-se ausentes, seus filhos adotivos da “Igreja Missionária de Evangelização do Brasil”, resultado da ação eficaz do Espírito Santo.
Deus guarde e proteja Vossa Santidade.